Terça, 22 Maio 2018

Manuel Rivanôr Pinheiro

O sonho de chegar a servidor do Supremo

“Eu viajo pelo mundo inteiro, mas todos os anos visito minha terra natal, Milhã, a princezinha do Capitão-mor.” Capitão-mor é o rio que banha a cidade de Milhã, afluente do Jaguaribe, o maior rio seco do mundo, diz a lenda.

 

Na pequena fazenda Fortaleza, em Milhã, a 300km de Fortaleza, nasceu, em 9 de novembro de 1940, Manuel Rivanôr Pinheiro, filho do agricultor Aderson Pinheiro e da dona de casa, Maria Francisca Pinheiro, o último dos cinco filhos, Rienes, Rineuto, Nivardo, todos falecidos, e Antonio Nogueira Pinheiro, que lá ficou para tomar conta da fazenda. Em ano de chuvas, plantavam-se e colhiam-se para a subsistência arroz, mandioca, feijão e algodão para vender. Em anos de seca, muito sofrimento.

 

Em 1952, numa missão religiosa para crisma dos católicos, D. Antônio de Almeida Lustosa, arcebispo de Fortaleza, pediu à comunidade de Milhã para indicar quatro meninos que iriam para o Seminário da Prainha estudar de graça. Rivanôr era o único filho de pais pobres e foi o único que levou a sério os estudos de latim e grego tendo feito todo Seminário Menor e o primeiro ano de Filosofia do Seminário Maior. Foram sete anos, depois frocou, isto é, deixou a batina.

 

Em 1959, foi para o Rio de Janeiro, onde serviu Exército, quase chegando a sargento do Regimento de Cavalaria de Guardas.

 

Em 1963, deu baixa porque passou no concurso para trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda. “Precisava ganhar um pouco mais para me manter e mandar um dinheirinho pro papai.” Lá ficou seis anos e encontrou seu primo, prof. Raimundo Pinheiro, de Jaguaretama, vizinha a Solonópole, muito conceituado na Escola Pandiá Calógeras, e prof. Francisco Gurgel Jácome, de Acopiara. Um dia Raimundo foi passar 90 dias no Ceará, entre Jaguaretama e Fortaleza. Como morava na casa dele, aproveitou para ler a coleção dos 36 livros de Machado de Assis, tornando-se um machadiano.

 

Em 1969, voltou para o Rio para trabalhar na SATA, empresa da Varig, no Aeroporto Santos Dumont, tendo frequentado o Amarelinho, o Calabouço, restaurante dos estudantes com fome, e o Beco das Garrafas, onde descobriu a bossa-nova, no seu berço e nos seus acordes iniciais. No mesmo ano, desembarcou em Brasília para trabalhar na SATA, no Aeroporto de Brasília. Hospedei-me no Bagdad Hotel e fazia as refeições no Beirute, do Chico Marinho, de Ipu, que conhecera no Rio de Janeiro, quando era vigia da Antártica, na Riachuelo. Na SATA chegou a ser gerente de 300 empregados, com atendimento a Varig, Cruzeiro do Sul, FAB, Panam, cargueiros de diversas companhias. Trabalho duro, com cargas, bagagens, correios, comissaria, de dia, de noite, de madrugada, com calor ou com frio.

 

O lado bom do Aeroporto: conheceu muita gente, políticos, artistas, jogadores, atletas, os ídolos. Acabou sendo padrinho de batismo de 22 filhos de amigos e colegas, por sua índole de bom amigo.

 

Em 1977, trocou a SATA pela gerência de circulação de O Globo, onde ficaria até 1980, cuja sucursal, dirigida pelo ex-deputado Arnaldo Nogueira, ficava na rua da Igrejinha, na 108 Sul. Havia o vício de leitura de jornal e muitos iam ao Aeroporto, de madrugada, comprar o jornal que chegava do Rio e de São Paulo. Arnaldo era colecionador de carros antigos e tinha uma famosa Vemaguete. Recorda-se do seu auxiliar direto, o Cidão, e da secretária Ligia. “Trabalhar nas Organizações Globo foi uma honra para mim, e lá aprendi muito.”

 

Nesse período da vida, trabalhava de dia e estudava Direito à noite na UDF. Ganhou o apelido de “Barão”, dado pelos colegas e professores, dos quais se recorda de Linaldo, Darci e Paranhos. Tinha por objetivo formar-se em Direito para buscar outros mundos. Acabou sendo o orador de sua turma.

 

Em 1980, foi convidado e indicado para ser diretor-financeiro do INAMPS em Fortaleza e lá ficou ate 1984. “Não suportando mais a saudade de Brasília, voltei para trabalhar na Secretaria Extraordinária do Ceará, no governo de Tasso Jereissati. Nessa época, comecei a perseguir um sonho meu desde jovem: trabalhar no Supremo Tribunal Federal. Tudo começou quando passei um dia, no Rio, por trás do prédio do Supremo, na rua México. (A frente dava para a Rio Branco). Hoje é o Museu do Supremo. Disse pra mim mesmo: ‘um dia trabalharei no Supremo’.”

 

“Em 1991, me prepararei, fiz concurso e passei. Cheguei ao Supremo que foi a minha escola mais ilustre. O Supremo foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Dava gosto assistir aos embates jurídicos dos ministros Moreira Alves e Paulo Brossard, homens de vasta cultura jurídica.” No plano privado, recorda-se de uma lição simples de vida, de sua colega Graça, que morava na 411 Norte e que criava 22 gatos e que lhe dizia que gato não miava. Gato ronronava. “Taí, eu não sabia disso.” Lá se aposentou e foi trabalhar na Câmara dos Deputados.

 

Em 1991, na Câmara, conheceu a Flávia Neiva Ibiapina, filha do casal Edilma e Wilson Ibiapina e que com o Fábio formam uma família “que é referência para a minha”.

 

Rivanôr entrou depois para a maçonaria, foi venerável e grande orador, tendo exercido vários cargos e funções.

 

Estudou francês na Casa do Ceará, complementando seus estudos na UnB e na Aliança Francesa.

 

“Em 2005, com 65 anos, comecei a ler os livros que não pudera ler antes e fazer as viagens que não fizera, Estou realizando agora os sonhos sonhados.”

 

Casou-se, em 1983, com Antonia Zuila Pinheiro, de Solonópole, servidora concursada do Superior Tribunal de Justiça, aposentada quando trabalhava na Corte Especial do Tribunal. Depois de aposentada, trabalhou no Departamento Jurídico do Conselho Federal de Contabilidade. Coordenou ainda a municipalização nacional do trânsito empreendida pelo Denatran.

 

“Agora estamos sempre juntos, viajando pelos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ceará.”

 

O casal teve os seguintes filhos:

 

Kátia Lucy Pinheiro, professora titular de Libras, da Universidade Federal do Ceará. É surda e tem mestrado. Rivanôr Saulo Pinheiro, jornalista, autor, ator e diretor. Pertence à Companhia de Comédia “Sete Belos”, que se apresenta alternadamente em São Paulo e Brasília. Há sete anos encara o teatro com seriedade. Estevão Manuel Pinheiro, de 22 anos, está terminando o curso de Economia na UnB e já se prepara para o mestrado em 2014, no Rio de Janeiro. (JBSG)

 

 

 

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