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Sexta, 19 Outubro 2018

Antônio Gomes Leitão

Antonio Gomes Leitão (Santa Quitéria) - A luta incessante, às escuras, de um homem de visão

 

Antônio Vitor Gomes Leitão, filho de Cristiano Barros Leitão e Ana Araniza Gomes Leitão; ele pedreiro, ela costureira. Nasceu em Trapiar, município de Santa Quitéria, no sertão do Ceará. Apesar de ter nascido cego, teve uma infância tranquila na cidade natal. Até aos doze anos de idade, brincava bastante com os seus quatro irmãos (Luiz Gonzaga, Antônio Estélio, Francisco Eudásio e Maria do Socorro) e todas as crianças da cidade. Teve uma infância pobre, não passou fome, mas viveu sem qualquer possibilidade de chegar próximo ao luxo.

Sua mãe, por ser muito apegada a ele, tentou adiar ao máximo a sua ida para Fortaleza - cerca de 200 quilômetros de distância - para estudar internado no Instituto de Cegos do Ceará. Seu pai teve uma conversa séria com a esposa, perguntando na ocasião, quantos anos achava que teria de vida... Ela, então, chorou e admitiu a ida de Antônio para o colégio interno. Em Fortaleza, o menino do interior ficou quatro anos, sendo alfabetizado de forma bem rápida, galgando as séries seguintes de forma acelerada e sem reprovação.

Casa nova

Os pais e irmãos de Antônio Leitão vieram para o Distrito Federal em 1973. Dois anos depois, em 1975, o então adolescente – já com o primeiro ciclo de estudos concluídos na capital cearense – chega à casa dos pais, em Ceilândia. Com a ajuda de familiares, logo foi matriculado em uma escola para dar continuidade aos estudos. Além da escola regular, em Ceilândia, ele ia fazer aula de reforço e outras atividades em uma escola especial na L2 sul, em Brasília, enfrentando ônibus lotados todos os dias.

Durante o 1° e 2° graus, nunca foi reprovado - mesmo realizando a maioria das provas de forma oral, por falta de maior apoio na área de recursos tecnológicos, que nessa época sequer existia. Antônio ainda achava tempo para participar de festivais de músicas, movimentos estudantis, sociais e políticos. Terminou o 2° grau em 1981, logo após ganhou festivais de músicas no antigo Colégio Objetivo. Em 1984 ingressou no curso de letras no UniCeub, aonde ia e vinha todos os dias, às vezes até a noite, de ônibus para a Ceilândia. Durante a vida acadêmica participou das atividades do movimento para Diretas Já.

Os filhos

Em 1985 conheceu e namorou Santelma Costa, namoro este que deu origem ao primeiro filho Thiago. Por ser cego e de origem humilde, Antônio sempre sofreu preconceito exercido de forma velada pela sociedade. Mesmo assim nunca se abateu, sempre entendendo que valeria a pena seguir em frente. Conforme o seu professor, conselheiro, amigo e também cego, Elmo Luz, a formação superior e um concurso público provocariam mudanças significativas na vida de qualquer indivíduo deficiente e pobre.

Terminou o curso de letras em 1986 e foi para a luta à caça de emprego. Em 1987 ingressou como auxiliar em radiologia na antiga Fundação Hospitalar, no HRT. Neste mesmo ano, se casou com Edna de Fatima Batista, mãe do seu segundo filho, Júlio Cesar, que nasceu em 1988. Nesta ano, trabalhou como professor na Antiga Associação Educacional Compacto. Em 1989, Antônio Leitão passou no concurso da antiga Fundação Educacional, antes mesmo de haver cotas para deficientes. No mesmo ano, ajudou a fundar o Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB.

O lutador

Em 1992, Antônio Leitão teve uma crise de Artrite Reumática, passando a ter de andar de muletas. A partir daí, começou uma nova luta efetiva pelas pessoas com deficiência. Criou a Associação de Portadores de Problemas Visuais do DF - APPROVI- DF. Por meio dessa entidade, encampou várias lutas em favor do grupo. Inclusive, em 1993, pela primeira vez, liderou uma invasão à Câmara Legislativa com mais de 100 cegos, fato até então inédito. Lutava por projetos que beneficiariam este segmento de pessoas com deficiência. Após esse trabalho, disputou cinco eleições no Sindicato dos Professores e três eleições proporcionais a Câmara Legislativa.

Em 1998, ajudou a criar a Associação dos Portadores de Necessidades Especiais -ADAPTE/DF. Presidida até hoje pelo também cearense e cadeirante, José Cícero Medeiros. Em 2004, criou o Instituto Nova Visão – INOVI. Com essa entidade de defesa aos cegos, promoveu várias lutas pela cidadania e Direitos Humanos.

Em 2011 o professor Antonio Leitão conquistou mais um importante título, o Registro Profissional de Jornalista do Ministério do Trabalho. Nessa nova etapa, ficou à frente de uma nova luta: durante quatro anos, ajudou a liderar o movimento pelas Rádios e TVs Comunitárias. Ele trabalhou em várias rádios piratas, como forma de luta para a legalização do segmento. Conseguiu.

O Idealista

Em 2010, Antônio Leitão requere ao Ministério Público Eleitoral a cassação do Governador Arruda. Baseou-se no argumento de que o mandato era do partido e não da pessoa - posto que o Arruda estava na época sem partido, fato que levou o Ministério Público a pedir e a conseguir a Cassação do supracitado governador. Esse tipo de atitude é uma constante na vida de Antônio Leitão, que também combateu ativamente o rorizismo nesta capital.

Por ter trabalhado em Rádios piratas, pagou uma multa de mais de 3 mil reais a Anatel em 2011. Também em 2011, Antônio Leitão ingressou no TRE local com um processo de pedido de Cassação do então deputado Benício Tavares, que vinha há mais de 20 anos tendo a função de Deputado Distrital, com várias ações irregulares em seu currículo parlamentar. O êxito desse processo foi logrado em 2012, no Superior Tribunal Eleitoral - STE.

O artista

Antônio Leitão tem músicas gravadas, poesias publicadas em coletâneas e vários artigos em jornais locais de pequeno e grande porte. Há mais de dois anos, Antônio Leitão apresenta um programa de entrevistas na TV Comunitária, canal 8 da NET. Fala com igualdade com Senadores ou com o cidadão mais humilde – conhecimento que adquiriu na luta pela superação dos obstáculos naturais que a vida impôs a ele.

Há mais de dois anos, o artista, poeta, professor e jornalista Antonio Leitão ocupa o cargo de Coordenador de Educação Inclusiva da Secretária de Educação do Distrito Federal. Nessa nova missão conseguiu criar a escola bilíngue para surdos, implantou serviços de softwares para estudantes autistas e com Síndrome de Down. Por meio de parcerias com parlamentares da Câmara Legislativa, ajudou a promover a primeira audiência pública para surdos, dentre outras ações.

A lição

Casado com a professora e coreógrafa Luciana Vitor Dias, Antônio Leitão vive muito próximo à família de quatro irmãos - todos estabelecidos no Distrito Federal. Tem dois netos, filhos de Thiago. A estes, esse cego de visão passa uma lição de vida: “A educação liberta e o trabalho dá a autonomia ao cidadão. Defendam os direitos humanos e lutem contra todos os tipos de corrupção e de preconceito”.(AGL)

 

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