Quinta, 24 Maio 2018

Maria da Glória Nascimento de Lima

Criada em Juazeiro do Norte: “ Eu adotei 39 crianças e 2.500 crianças foram por mim assistidas”.

Ela guarda na sua casa, que é também seu local de trabalho, Lar da Criança Padre Cícero, na QNG 37, Taguatinga Norte, relíquias do padre Cícero Romão Batista, o Padim Cícero de Juazeiro do Norte, que lhe foram entregues por seu pai, Joaquim Nemésio do Nascimento, sacristão e guardião dos bens do padre: O porta-chapéu dele, com as iniciais, CRB; o oratório dos pais dele, mãe Quinô e pai Quim, feito em cedro e que teria mais de 250 anos; a estátua feita pelo mestre Noza, em 1936; a colcha de cama, feita pela beata Mocinha; panos da igreja e de casa; fotos e um relicário.

 

Maria da Glória diz que se considera cearense de Juazeiro do Norte, na realidade nasceu no Agreste Pernambucano, em Pedra de Buíque, a 200km do Recife e a 500km do Juazeiro, em 20 de julho de 1945, filha de Nemésio Joaquim do Nascimento e Maria Cérvula de Jesus. Ele foi muita coisa vida: tropeiro, vendeu roupa, cacaria, óleo de mutamba, espelho, tecido, linha, agulha, tesoura, panela, fumo, rapadura, café, papelim, de fazenda em fazenda. Ela, Cérvula, era portadora de necessidades especiais. Está na cédula de identidade.

 

Depois de correr Ceca e Meca, Nemésio mudou-se para Juazeiro, com cinco anos, levado por padre Cícero, que o criou. Mais tarde formaria com Pedro Ceboleiro; Dr. Ângelo, farmacêutico; e mestre Noza o grupo dos mais próximos colaboradores de padre Cícero, que acabou casando Nemésio e Cérvula.

 

Em 1948, Maria da Glória foi abandonada na porta da Igreja dos Franciscanos. Frei Jesualdo, superior dos franciscanos, recém-chegado da Itália, pegou-a e quis criá-la. A pedido dele, Nemésio, que morava na rua São José 110, na casa por ele comprada e que fora das beatas do padre Cícero, registrou-a como filha e a criou. Também criou o Museu Padre Cícero e foi administrador dos seus bens.

 

“Padre Cícero tinha morrido há 11 anos, Juazeiro vivia como se ele estivesse presente em todos os lugares. Eu chamava frei Jesualdo e Nemésio de pai. Quando um viajava, eu ficava com o outro. Fui muito agarrada ao meu pai, que chegou a ter imóveis e fazendas. Quando morreu, parte dos seus bens ficou pra mim, outra parte para os salesianos e outra parte sumiu no fórum”, recorda.

 

Maria da Glória herdou de seu pai, Nemésio, o amor que carrega na vida pelas crianças desprotegidas. “Meu pai criou 25 homens como filhos adotivos. Não, não eram registrados, mas tinham do tudo. ”

 

Sua vocação estava ali exemplificada: “com oito anos, peguei a primeira criança para criar. Era Isabel, filha de uma doente mental. Meu pai disse: ‘minha filha, você é uma criança, não pode pegar uma criança para criar’. Fiquei cuidando de Isabel. Eu nunca brinquei de boneca, mas com crianças. Aos 10 anos, peguei outra criança. Maria Costureira foi ganhar neném, fui chamar a parteira, a mulher não estava em casa. Chamava-se Maria da Penha e ficou comigo. Aos 12 anos, a terceira, filha do João, irmão adotivo, era Maria das Dores, que botei dentro de casa. A quarta foi Maria José, era da roça, ficou dois anos comigo, mas a mãe a levou”.

 

Quando Nemésio faleceu, em 1959, Maria da Glória tinha 14 anos, ficou aos cuidados do juiz de Direito de Juazeiro, Dr. Cândido Couto. As crianças que ela criava foram encaminhadas pelo juiz à irmã Nely, do Educandário Jesus Maria José, das irmãs de caridade. Só em 1963, com 18 anos, o juiz Cândido Couto liberou os bens deixados pelo meu pai, compreendendo cinco imóveis na rua São José e duas na rua Grande. Acredita que alguém ficou com as fazendas e as casas da Praça Padre Cícero.

 

Em 4 de junho de 1965, casou-se com Israel Saturno de Lima, de Alexandria, RN, na Igreja São Miguel. O celebrante foi frei Jesualdo.

 

Teve três filhos Maria Marcionila, nome da mãe de Israel, Maria Meire e Mércio. Todos nasceram em Juazeiro do Norte. Maria Marcionila casou-se com Sérgio, é escritora, com uma filha, Maria da Glória Estefani; Maria Meire, pedagoga e administradora, casada com Laurêncio de Jesus, representante comercial, com dois filhos Caio César e João Vitor. Mércio Nascimento de Lima, professor de física e coordenador da Universidade Católica, foi casado com Renata Cristina e tem união estável com Ticiane, com três filhos, Maurício, Renato e Eduardo (Dudu).

 

Em 1971, decidiu vir para Brasília tratar de sua filha mais velha, Maria Marcionila, e tentar nova vida. Enfrentou o desafio, aqui chegando em 6 de julho numa C-10. “O motorista, pessoa de má índole, me botou na boleia, no maior aperto. Foram quatro dias e três noites de viagem, foi difícil. O homem nos largou debaixo de uma marquise em frente à antiga Casa do Serrote, em Taguatinga.

 

“Enfrentei dias terríveis, mas fui melhorando com meu trabalho, pois me sobrara outra mala de roupas que trouxe para vender. Logo arrumamos um barraco na QND 59, fundos, só com um quartinho, banheiro pra todos. Um vizinho me emprestou um colchão. Foram seis meses difíceis”, confessa.

 

Ainda em 1971, voltou a Juazeiro e empenhou a sua casa para investir em confecção. Tentou ir de avião. Até conseguiu carona num avião da FAB que ia para Juazeiro, mas o avião caiu em Abadiânia. Houve mortos e feridos. Desistiu do avião e foi de ônibus da Ipu. Empenhou a casa, pegou o dinheiro, comprou uma confecção e voltou para Brasília.

 

A partir de 1978, com sete anos de Brasília, começaram a botar crianças na sua porta. Acolhia. Na primeira casa que morou, na QNE 30, em Taguatinga, através de um programa de TV, da época, Brasília Urgente, pegou cinco crianças. Na segunda casa na QNA 6, lote 24, que já era própria, mais crianças lá foram parar. Em um ano foram 55 crianças. “É meu projeto de vida.”

 

Em 1984, fizeram uma gincana em Brasília, na UnB, e quem tivesse mais filhos ganhava alguma coisa. Foi premiada. Atendia a 85 meninos. “Isso estragou minha vida, pois me tornei conhecida. O juiz da Vara de Menores, Dr. Nívio xxx, que por 15 anos foi titular da Vara de Menores, mandou uma equipe para averiguar meu procedimento. Nada foi encontrado de irregular.”

 

Em 1986, comprou a área onde se encontra hoje, QNG Área Especial 37, com o objetivo de instalar uma creche. Em 1988, mudou-se e colocou o nome de Lar da Criança Padre Cícero.

 

No pescoço de Maria da Glória há uma corrente com 18 pendentes que representam seus 18 netos, dos quais seis de sangue e 12 adotivos.

 

Jamais perdeu o contato com frei Jesualdo, que casou Maria Meire e Mércio e batizou Renato e Dudu, de Lazzaro de Bergamo, Itália, para onde voltou. Lá já esteve por seis vezes enquanto ele foi vivo. Quando vinha a Brasília tratar de saúde, não ficava com os franciscanos na 914 Norte, mas na casa dela. Era exigente: Renata fazia a comida dele. Unhas eram com Shirley, cabelo com a Rosângela, e Jucelene lhe dava banho.

 

Maria da Glória não esquece o seu Juazeiro, onde ainda moram o que chama de duas vozinhas: Maria José, Dezinha, de 92 anos, e Donizília, de 86, cega.

 

O Lar da Criança Padre Cícero é uma instituição filantrópica, com utilidade pública. “Não faço galinha, rifa, bingo, sorteios, não exponho minhas crianças. É questão de foro íntimo, recebo recursos públicos e presto contas, como recebo doações de amigos.” (JBSG)

 

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