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Terça, 14 Agosto 2018

Luiz Martins da Silva

Jornalista, professor da UnB , poeta. Memórias de um cearense de Nova Russas

Vivo em Brasília desde 1970, mas parte do meu cotidiano é explicar a milhares de amigos que tenho por aqui o porquê de minha cidade-natal se chamar Nova Russas. Nem eu o sabia, soube certa vez ao conhecer o escritor cearense, Gerardo Mello Mourão (de Ipueiras), que me contou: o Ceará tem a cidade de Russas e a de Nova Russas. Aconteceu que vieram para o Ceará algumas levas de imigrantes da Lituânia, causando admiração pelo que traziam de diferente àqueles sertões, mas, sobretudo, o cabelo ruivo daquelas mulheres de “pelo russo”.

 

Um dos primeiros amigos a reencontrar por aqui, fato que me provou que o mundo é realmente redondo e que até as pedras se encontram, foi o publicitário Carlos Pontes, também natural de Nova Russas e meu colega no Ginásio Monsenhor Tabosa, de quem, por sinal, comprei o livro do 5º ano, ou seja, de admissão ao ginásio. Mas, há toda uma colônia de nova-russenses em Brasília, tanto que por pouco o referido Carlos Pontes não se elege deputado.

 

Outro encontro impressionante foi vir a viver por um bom período de tempo, porta a porta com o conterrâneo Francisco das Chagas, hoje engenheiro aposentado, mas, à época, estudante como eu, da Universidade de Brasília.

 

Prima, a Eleusina, vim a conhecer, recentemente, em Lisboa. Estava eu em viagem acadêmica, tinha ido apresentar um trabalho num congresso internacional, na Universidade Nova de Lisboa, onde fiz parte de meu doutorado. Uma doutoranda, da UnB, que fora minha orientanda e que estava no mesmo evento me apresentou uma amiga: “Olha, ela também é cearense!” Depois de umas poucas coordenadas, as deduções: “Então, você é filho da tia Maria!”, ao que retruquei quase em uníssono: “Então, você é filha da tia Socorro!”.

 

Encontros muitos se deram, nem sempre com cearenses da mesma cidade ou redondezas, na verdade, nasci em Fazenda Nova, e não propriamente na cidade, objeto de minha primeira migração, quando, aos quatro anos, minha família se mudou. Minha mãe, Maria Bezerra da Silva, havia feito uma promessa, que se realizado o seu sonho de ir morar na cidade, faríamos a viagem a cavalo e ela a pé, seis léguas. Detalhe: rezando, o tempo todo. Ela e meu pai, Sebastião Martins de Freitas, foram profícuos na prole: dez filhos, eu era o terceiro mais novo.

 

Encontrei muita gente de Crateús, alguns, colegas meus da própria UnB, onde vim a conhecer o ilustre psicanalista Francisco Martins, que não é meu parente, pois há Martins por todo esse mundão de Deus, recheado de brava gente nominada em homenagem ao Deus da Guerra, Marte, mas, todos de muito boa paz, desde que se não se pisem os calos. E também encontrei conterrâneos a dois metros de distância, na vida profissional. Numa das redações em que trabalhei como jornalista, lá estava José Romildo de Oliveira Lima, natural de Nova Russas e membro de uma grande família que veio para Brasília, cujo patriarca, o “Seu” Lima, foi um carteiro exemplar e uma figura tão cheia de feitos e histórias que vai virar livro, por enquanto, sendo organizado. Pois não é que uma vez estava viajando a trabalho, tinha ido cobrir um Acordo Econômico entre o Brasil e a União Europeia, quando me deparo com o José Romildo, no lobby do Brussel’s Hilton? Não nos víamos há tempos e ele estava ali pelo mesmo motivo, estudava em Londres e um veículo de imprensa havia encomendado a ele aquela mesma missão.

 

De lá para cá, viajando ou não, na vida pública ou numa feira popular, é cearense para todo lado e, como sempre, histórias, sagas, travessias heróicas de pessoas que também foram expulsas pela seca ou atraídas pelo Eldorado que veio a ser Brasília, a partir do final da década de 1950. Eu tinha oito anos, em 1958, quando presenciei a realidade e a crueza que se traduzem nessa palavra por demais árida para simples quatro letras: seca. Lembro-me que o sino da matriz repicava, com poucos intervalos, o dia inteiro, ou seja, fora dos chamados para a missa e outros atos litúrgicos: eram chamadas para sepultamentos de “anjinhos”.

 

Ao chegarmos à cidade de Canindé, havia um velório na feira. E, entre barracas e mesas, mandioca, farinha, carne-seca, etc., lá foi o Brito já fotografando, acreditando tratar-se de uma vítima da seca. Somente para se certificar do que lhe parecia redundante, aproximou-se de um daqueles sertanejos absortos naquela litania de velas e ave-marias e perguntou: “Morreu de quê?” Resposta minimalista, sujeito, predicado e complemento nominal desnecessário: “Foi faca”.

 

Mas, o nosso destino focal era a cidade-Meca da seca, aquela que se notabilizou e virou perífrase, “A Cidade Mais Seca do Brasil”, Irauçuba. Lá, mais relatos e depoimentos singulares e mais duas singularidades à parte. A primeira, por lá, soubemos, acabara de passar, na sua versão de repórter, uma celebridade que viria a se destacar também como deputado, Fernando Gabeira. Que concorrente! A segunda, a de que mal havíamos lá amanhecido (toda água da pensão para os hóspedes se resumia ao que cabia num tacho de barro) fomos atingidos por um incômodo boato: éramos dois recrutadores de homens para trabalhar em Brasília. Meu Deus! E quantos deles caberiam, além de nós, num simples fusca?

 

Estes são, como na canção do Roberto, alguns detalhes, de um cearense, cuja família, de origem rural e cansada de seca, foi atraída pelo Eldorado chamado Brasília, para onde seguimos, como tantas outras famílias, e com histórias parecidas e já retratadas pelo cancioneiro, haja vista Luiz Gonzaga e sua Triste Partida. Primeiramente, vieram o pai e os mais velhos. Uma vez acomodados, buscaram o resto da família. No meu caso, isso ocorreu em 1961. Moramos em Goiás, na cidade de Formosa, onde, por um detalhe tão pequeno, pude estudar de graça num excelente colégio, dirigido e formado por padres e freis holandeses, de extremados cultura e rigor. Foi uma permuta, negociada pela minha mãe, a Dona Maria Bezerra, hoje com seus 94 anos: “Esse menino sabe latim”. E era verdade. Lá, em Nova Russas, eu aprendera rudimentos de latim com o “Seu” João, um velho sacristão, com quem fiz um curso de uma espécie de latim, latim de igreja. As cerimônias e, claro, principalmente as missas, eram todas em latim. E é em latim que concluo, pois o espaço acabou: Deo gratiae. Graças a Deus. (LMS)

 

Luiz Martins da Silva, 62, é jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília; mestre em Comunicação e doutor em Sociologia, com pós-doutorado em Serviço Social. É poeta e cronista. Trabalhou em vários órgãos de imprensa, entre eles, Jornal de Brasília, O Globo e Veja.

 

Como poeta, foi premiado pelo Concurso Nacional de Poesia Cassiano Nunes. Participou de Águas Emendadas, 1977; Os Porretas, 1978; Poesia Jovem, 1982, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda; Graphoesia, organizada por Luiz Turiba, 1988; Poesia de Brasília, 1998, e Poemas para Brasília, organizadas por Joanyr de Oliveira; Todas as Gerações – o conto brasiliense contemporâneo, organizada por Ronaldo Cagiano, 2006; Deste Planalto Central –poetas de Brasília, 2008, organizada por Salomão Sousa; Rua de mim, 1977; Comigo foi assim, 1979 em Brasilinhas, 1980; Nomes, 1988; Breviários, 2002; Realejo, 2003. (LMS)

 

 

 

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