Quinta, 24 Maio 2018

Francisco Mauro Holanda Cavalcante

Francisco Mauro Holanda Cavalcante nasceu em Fortaleza em 22 de abril de 1956, na rua Tibúrcio Cavalcante, 861, no Meirelles, filho único – “este é dos defeitos de minha biografia”, diz – de Clovis Coelho de Holanda e Maura Brasil de Holanda, ele de Cascavel, ela de Baturité. Eles se conheceram na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Ceará (UFC).

 

Seu avô paterno, Luis Maurício Coelho de Holanda, foi secretário da Prefeitura de Cascavel, no início dos anos 20 do século passado, juntou as economias e foi para Fortaleza, morar em Jacarecanga, onde montou um pequeno negócio. Sua avó, Florinda Carminda de Holanda, era do lar.

 

Seu avô materno, João Mendes Brasil, era de Baturité, mudou para Fortaleza muito cedo. Não havia carreira militar, ganhou a patente de major quando foi trabalhar no colégio Militar, onde viveu a maior parte de sua vida. Sua avó, Zulmira Cunha Camelo, era de Parangaba. Recorda uma das virtudes de seu avô, proteger os fracos e oprimidos. “No governo Vargas, no Estado Novo, deu proteção em sua casa (no Ceará se diz, acoitou) ao desembargador Faustino de Albuquerque e Sousa, perseguido pelo Estado Novo, e que veio a ser o primeiro governador na redemocratização, entre 1947 e 1951. Quando assumiu o governo, como gratidão, chamou um de seus filhos, Olavo Mendes Brasil, já falecido, para ser oficial de gabinete no Palácio da Luz, imagem que guardo.” Lembra ainda: “Na noite de 31 de março de 1964, quando começou o regime militar, acordei com barulho em casa, saí de meu quarto e, por um corredor, cheguei à sala de jantar, onde estavam meu pai, minha mãe, meu tio Olavo Mendes Brasil e Lauro Severiano Maciel, advogado trabalhista muito conhecido, que fora presidente do Maguari, na rua Senador Pompeu, e que era candidato ao Senado, pelo PTB. Meu tio Olavo simplesmente levara o Lauro para se esconder lá em casa. Passou alguns dias conosco, até que perdeu o medo de ser preso. Meus pais seguiram assim a trilha de dignidade de meu avô João”.

 

Francisco fez a alfabetização no colégio Batista, na Santos Dumont, estudou no colégio Militar de Fortaleza, fez o vestibular, passou e cursou Ciências Econômicas na Universidade de Brasília, onde se graduou em 1983.

 

Seu pai, Clóvis, foi fundador da Caixa Econômica do Ceará em 1946, na Praça do Ferreira, bem próxima do Palácio da Luz, que foi sede do governo. Na Caixa, exerceu as funções de contador-geral durante 25 anos. Em 1974, por ocasião da fusão das caixas econômicas e criação da Caixa Econômica Federal, Clóvis foi transferido para Brasília para trabalhar como auditor e consolidar as contas de todas as caixas estaduais. Dona Maura, sua mãe, era funcionária da Justiça do Trabalho e se aposentou antes de acompanhar o marido para Brasília.

 

“Em Fortaleza, onde vivi até os 18 anos, fiz as melhores amizades de minha vida, as mais sólidas e espontâneas. Por ter passado esta fase no Ceará, são as mais gratas referências grandes que procuro manter. Sempre que vou a Fortaleza, procuro os velhos amigos e meus familiares, que são muito queridos”, recorda Francisco.

 

Em 1980, Francisco ingressou no Itamaraty, em 1981, foi 3º. secretário; em 1984, 2º. secretário. Na Divisão de Promoção Comercial, foi diretor do pavilhão do Brasil nas Feiras Internacionais de Plovdiv, na Bulgária, e do Pacífico, em Lima. Em 1986, foi para Londres, fez Mestrado em Relações Internacionais pela London School of Economics; em 1989, estava em Ottawa, quando chegou a 1º. secretário, em 1997; a conselheiro, em 1998, serviu em Roma. Foi promovido a ministro de 2ª. em 2005, quando chefiava a Divisão da Ásia e Oceania II. Foi promovido a ministro de 1ª. em xxxx, e hoje dirige o Departamento da Ásia do Leste, com foco principal na China.

 

“Meu pai teve muitos irmãos: meu avô ficou cego, não havia políticas públicas para ampará-lo. Os filhos tiveram que trabalhar e sustentar a família: Florêncio Coelho de Holanda, o mais velho, abriu uma sapataria (nomexxx) na rua Major Facundo, que era frequentada por políticos e virou ponto de encontro. Papai trabalhava na sapataria, estudava e foi o único dos filhos a se formar. Florêncio fechou a sapataria e foi trabalhar na Prefeitura de Fortaleza. Morava na Maraponga, tinha uma capela consagrada a São Vicente. A casa era boa e lá reunia a família nos fins de semana e feriados. A tia Florinda casou-se com Júlio Holanda, muito rico, próspero, dono de uma fazenda chamada Gaia, deusa da terra e da fertilidade, onde plantava cana e criava gado. A propriedade era composta de três casas grandes, juntas, numa das pontas um engenho de rapadura e, na outra, um varandão que deu nome de ‘Varanda da Saudade’ ao programa de rádio de César Coelho, na Rádio Uirapuru de Fortaleza. A rádio funcionava na Praça Clóvis Bevilacqua, em cima da Gazeta de Notícias, cuja frente do prédio tinha o formato de um rádio. Nos fins de semana e feriados, Semana Santa e Carnaval, a família ouvia um programa do Cesár Coelho, primo e filho da tia Amália, outra irmã de seu pai. Na Gaia, as três casas pareciam se multiplicar para acolher as pessoas convidadas de tia Florinda. Papai tinha uma Rural Willys, 59, americana, chic, e, nos fins de semana, pegava a caminhonete e ia para Morada Nova, onde residia outra irmã dele, tia Nenzinha. César Coelho, por seu programa ‘Varanda da Saudade’ mandava o recado: ‘Atenção, tia Nenzinha, o Clóvis, a Maura e o Maurinho estão indo com tio Júlio e tia Florinda almoçar, Morada Nova‘. ‘Varanda da Saudade’ ficou no nosso coração e no nosso imaginário.”

 

Quando saiu para o primeiro posto em Londres, em 1986, Francisco procurou o conterrâneo Aldemir Martins, em São Paulo, lhe informou que estava indo para Londres e lhe pediu que pintasse uma jangada . “Você não acha que está pedindo demais, não?” “Não, não acho não. Mas se não puder pintar a jangada, não precisa pintar nada.” A partir da resposta, tudo mudou, Aldemir pintou uma jangada saindo de manhã cedo, içando a vela, aproveitando a brisa. A jangada volta no final do dia, trazida pelo terral, brisa do mar para a terra. “Duas coisas me chamam a atenção na tela de Aldemir: 1) a linha reta que baila; 2) a linha reta tem a ver com o espírito do cearense. Ela mostra a determinação de buscar um objetivo. Ela não é uma linha burra, mas que tem graça. A busca do objetivo se torna uma busca, não é uma linha de inflexibilidade, mas de movimento e de capacidade de ajuste a novas circunstâncias.” A tela foi para Londres e hoje está em Brasília com outras obras do Aldemir.

 

No exercício de sua missão diplomática, gratifica-lhe o esforço na implantação do gasoduto Brasil-Bolívia que se arrastava desde os anos 30. “Trabalhei seis anos que resultaram no nascimento do Projeto de 3.600km, estabelecendo as bases de um mercado gasífero regional. O projeto passou por dificuldades bilaterais, mas é marco do processo de integração regional.” Francisco ficou seis anos e meio na área do Mercosul. “O projeto saiu e serviu de base para que fizesse em 1999 minha tese para passar de conselheiro a ministro e que foi classificada em primeiro lugar.”

 

Outro fato que o gratifica é a criação do Departamento da Ásia do Leste, que chefia, como resultado da transformação por inteiro do ex-Departamento da Ásia e Oceania. Esse não tinha 10 diplomatas, e ninguém que saía do Rio Branco tinha interesse em trabalhar lá. Só que não conseguiam postos melhores os que por lá passavam. Na reestruturação, os assuntos da Ásia ganharam três departamentos, o seu, o da Ásia Central e o de Mecanismos Inter-regionais. Só o seu já conta com 15 diplomatas. Hoje, é grande o interesse dos jovens diplomatas em trabalhar na área. Pela primeira vez, recebeu o primeiro colocado no Rio Branco, que escolhe onde quer servir.

 

Gratifica-se ainda pelo fato de ter contribuído de alguma forma para a acentuada presença dos sul-coreanos no Ceará, onde estão implantando a Companhia do Pecém. Já como diretor do Departamento da Ásia do Leste, organizou o Fórum Brasil-Coreia, em Fortaleza, com a presença de 150 pessoas, especialmente empresários, professores, economistas, funcionários federais e do estado do Ceará.

 

Francisco casou-se em segundas núpcias com Maria Mercedes, paraguaia, filha de espanhol com uma suíça. Tem um filho, João Mendes, com 20 anos. Acadêmico de Psicologia no CEUB e dois enteados, Alejandro e Tomas, que moram em Assunção.

 

Alegra-se em ter ao seu lado, morando em Brasília, seus primos, jornalistas Haroldo e Tarcísio Holanda. (JBSG)

 

 

 

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