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Terça, 14 Agosto 2018

Francisco das Chagas Leite Filho

Francisco das Chagas Leite Filho (Sobral) - Jornalista. Saudades do rádio em plena era da internet

 

Na foto, junto com Francisco Menezes, eu devia ter uns 16 anos. Ele, também, ou um pouquinho mais. Apresentávamos então o Matutino Tupinambá, rádiojornal da manhã, das 6h30 pela Rádio Tupinambá, de Sobral. O Chico Menezes tinha a voz aveludada, fazendo contraponto com a minha, metálica – e cavernosa, para alguns.

 

Fazíamos um bom duo e conquistamos alguma audiência. No restante do dia, eu apresentava o Repórter Tupinambá, em horas cheias. Era um entusiasta do rádio, esse veículo que teima em não morrer e, hoje, parece cada vez mais vívido, apesar da TV e, agora, da internet.

 

Quando, porém, tive de escolher uma carreira, o rádio sofria o avassalamento da TV, veículo neurótico e mediocrizante, que nunca me agradou, mas que arrasta multidões, até hoje. Ainda bem que agora já começa a perder terreno para o mundo digital. Foi a época em que saí de Sobral e fui para Fotaleza e, depois de lá passar dois anos, onde perambulei pela Rádio Verdes Mares, Rádio Assunção, e fiz o primeiro ano de Jornalismo da UFC, consegui uma transferência para a Faculdade de Comunicação da UnB, a Universidade de Brasília, concebida por Darcy Ribeiro para ser o novo centro do pensamento nacional.

 

O ambiente era dos mais empolgantes, apesar da ditadura e de seus surtos repressivos, como a invasão militar do campus, em 1968, de que fui testemunha ocular. Vivíamos debatendo em seminários, oficinas ou em conversas informais, nas salas de aulas ou sentados nos vastos gramados.

 

No último ano de faculdade, fiz o estágio profissional. Reforcei a opção pelo jornalismo escrito e estagiei, primeiro, no Correio Braziliense (CB), e depois no Jornal do Brasil. Depois trabalhei no Correio do Povo, de Porto Alegre, O Globo, voltei ao CB, fui para a Folha de S. Paulo e Estado de Minas, último jornal em que trabalhei, antes de ingressar no jornalismo político (PDT). Fiz inicialmente cobertura geral, sobre temas comunitários, e depois Ministério da Educação. Em 1987, vou para Londres, onde fui correspondente do Correio Braziliense.

 

Leonel Brizola – Na volta da Inglaterra, me fixei um tempo no CB. Em 1979, dois meses antes da anistia, viajo a convite da embaixada da Alemanha Ocidental para cobrir, pelo Correio, as primeiras eleições do Parlamento Europeu. Foi na Alemanha, em junho daquele ano, que tive a oportunidade de dar uma virada em termos de profissão e militância política. É que de lá fui deslocado para Lisboa com o trabalho de cobrir o “Encontro de Trabalhistas do Brasil e do Exterior”, convocado por Leonel Brizola, que ainda estava exilado. Todo repórter tinha uma gana de entrevistar o líder mais perseguido da ditadura brasileira. E ele estava no auge, porque, expulso do Uruguai, dois anos antes, e tendo recebido asilo nos Estados Unidos, como parte da política de direitos humanos do presidente Carter, estava prestes a ser anistiado, depois de mais de 15 anos no exílio. O curioso dessa viagem é que me encantei com o Brizola e, a partir dali, desenvolvemos uma intensa amizade, que me levou ao PDT e a escrever dois livros sobre ele – Brizola Tinha Razão, em 1987, e Leonel Brizola – El Caudillo .

 

Hugo Chávez – Brizola não conseguiu ser presidente, mas faz uma obra educacional fantástica, que muito me impressionou, além de empunhar uma bandeira nacionalista, com raízes em Vargas, Perón, Gamal Abdel Nasser e outros líderes do então terceiro mundo (hoje, países emergentes). Brizola morre aos 82 anos, em 2004, época em que já havia surgido no horizonte um novo líder nacionalista: Hugo Chávez, da Venezuela. Não o conheci pessoalmente. Na primeira vez que fui a Caracas, em 2009, me disseram que era preciso entrar numa fila de mais 300 jornalistas internacionais que queriam entrevistá-lo. Na segunda, em 2011, ele já estava doente e passava a maior parte do tempo em Cuba, onde se tratava. Na terceira, fui para suas exéquias, tendo engrossado uma fila de dois milhões de pessoas. Mas o vi, finalmente, depois de 14 horas de peregrinação, no caixão, com aquele garbo de soldado romano e envergando faceiro seu uniforme militar.

 

Tendo sido eleito presidente da Venezuela, em 1998, com aquelas mesmas ideias de soberania e inclusão social, achei que Chávez era o Brizola que tinha dado certo. Tiro e queda. Por isso, escrevi meu mais recente livro Quem Tem Medo de Hugo Chávez, editado, como os outros dois anteriores pela Editora Aquariana, de São Paulo, tendo à frente o José Carlos Venâncio. Nele, eu mostro como o coronel paraquedista transformou a face da Venezuela e promoveu a integração efetiva da América Latina, cujos países até ali davam as costas uns para outros, estimulados pela política divisionista das grandes potências.

 

Hugo Chávez morreu aos 57 anos, em março último, após uma longa enfermidade, que não o impediu de estimular e consolidar sua obra revolucionária, que resultou na eleição de líderes progressistas como os Kirchners, na Argentina; Lula e Dilma, no Brasil; Evo Morales, na Bolívia, Daniel Ortega, na Nicarágua; e Rafael Correa, no Equador. Pelo ímpeto que tem imprimido à sua obra de inclusão e mobilidade social ascendente, na Argentina, acho que Cristina Kirchner é quem vai ocupar o lugar de Chávez na liderança da América Latina, sempre tendo como inspiração a revolução cubana, cujo líder Fidel Castro, ainda vivo e atuante, é o maior símbolo. Por causa disso, já me entreguei a uma nova empreitada: escrever um volume sobre Cristina e sua agitada mas sempre revolucionária Argentina. No meu blog, cafenapolitica.com.br, faço minhas modestas análises e videoentrevistas, transmitidas pela TV Cidade Livre de Brasília, canal 8 da NET (Só no DF), todas reproduzidas pelo Youtube. Também incursiono no Facebook, Twitter e Google Plus, sempre dando ou reproduzindo as últimas. (LF)

 

 

 

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