Quinta, 24 Maio 2018

Francisco Alves Lobo

Francisco Alves Lobo (Canindé)-Chico Lobo e sua família solidária

 

O primeiro automóvel chegou ao Ceará em março de 1909. Os empresários Meton de Alencar e Júlio Pinto compraram o carro da marca Rambler nos Estados Unidos. Como ninguém sabia dirigir, o carro foi levado do porto do Mucuripe até a loja da Auto Transporte, na rua Major Facundo, nº 69, puxado por um jumento. A operação foi acompanhada por uma multidão de curiosos. A partir desse episódio, cresceram nos cearenses uma profunda admiração pelo carro e a vontade imensa de possuir um. Foi justamente esse desejo de consumo que mudou a vida do comerciante Moésio Bezerra Lobo e o destino de toda a sua família.

 

É seu filho Francisco Alves Lobo, que nasceu em Canindé, quem conta a verdadeira odisseia que viveu com seus pais e irmãos e que veio terminar em Brasília, ainda na época da construção da cidade. Tudo por causa do caminhão. Chico lembra que teve uma infância tranquila, estudando em colégio particular. “Seu” Moésio, pai dele , era um próspero comerciante na cidade de Canindé. Na seca de 1958, quando o sertão pegava fogo e as pessoas fugiam em busca de comida e água, “seu” Moésio ganhava dinheiro fornecendo alimentos para a Prefeitura distribuir com os flagelados. Com as vendas garantidas e o dinheiro crescendo debaixo do colchão, “seu” Moésio resolveu diversificar suas atividades. A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi comprar um caminhão para fazer fretes e transportar os produtos que vendia em seu comércio. O caminhão simbolizava também sinal de status, riqueza.

 

Chico Lobo diz que, no caso de seu pai, foi um verdadeiro desastre. “Seu” Moésio entrou no ramo de caminhão sem nunca ter dirigido uma bicicleta. Contratou motoristas que também não conheciam as manhas do caminhão, muito menos das estradas. O carro vivia dando “prego”, atrasando entregas, perdendo contratos. No lugar de lucro, só prejuízos se acumulando. Os negócios foram ruindo e, na ânsia de recuperá-los, mudou-se para Alagoinha, na Bahia. Queria fichar os dois caminhões na Petrobras para garantir uns fretes. Levou com ele os motoristas e suas respectivas famílias. Foi só despesa e tiveram que voltar para Canindé, antes passando por Brejo Santo. Sua mercearia, que deixou entregue a um sócio, foi ladeira abaixo. Nada dava certo, parecia macumba.

 

Um parente que morava no Paraná acenou com a possibilidade de usar os caminhões no transporte de café. E lá se foram para o Sul do País. O primeiro choque foi a temperatura. Sair do calor do sertão de Canindé para o frio de Borrazópolis foi uma mudança drástica a que eles não se acostumaram. Então pintou a ideia de se mudar para Brasília.

 

O deputado Leão Sampaio, de Juazeiro do Norte, conseguiu um emprego para “seu” Moésio. Sem concurso nem nada, foi trabalhar no Departamento de Administração do Serviço Público (DASP). Um mês depois estava mandando chamar a família. Em 1962, a coisa mais difícil em Brasília era moradia. A cidade em construção abrigava os candangos em barracos de madeira. Francisco diz que um tio dele, irmão de sua mãe, já estava em Brasília. Romualdo Alves Pereira, que tinha quatro filhos e morava num apartamento de três quartos na 404 Norte, resolveu acolher “seu” Moésio, dona Maria Isa e seus oito filhos.

 

Durante quase um ano 16 pessoas num apartamento de três quartos. Para complicar a situação, dona Isa desenvolveu um problema mental que a levou a ter ciúme do próprio marido com a cunhada, mulher de seu irmão Romualdo – um inferno que o Chico, na época ainda criança, nunca mais esqueceu. Foi um alívio quando conseguiram uma casa no Cruzeiro. Em 1967, já com 21 anos, Chico consegue emprego no Touring Clube, que ficava na plataforma superior da Rodoviária. Ali fez carreira, foi de auxiliar de escritório à gerente-geral, para orgulho do pai, que indicava o filho aos amigos que enfrentassem qualquer problema com o carro.

 

Para chegar até a casa onde reside no Lago Norte ainda teve que ralar. Saiu de Brasília, morou em São Paulo, no Rio e na Paraíba. Foi de João Pessoa que retornou para Brasília, de onde espera não sair mais. Quanto aos seus oito irmãos, Chico conta que eles foram crescendo, cada um tomando seu rumo, casando, tendo filhos e, graças a Deus, hoje, estão relativamente em situação boa e moram todos em Brasília: “No Lago Norte, moram Maria da Salete, Maria Gorete, Joana D’arc e eu; na Asa Sul SQS 309 mora o Eduardo Moésio; o José de Anchieta e Isa Maria, na Asa Norte 406 e 315; a Berenice Maria, no condomínio Colorado, e a Izabel Cristina, no Cruzeiro. Tenho quatro filhos, dos quais dois do primeiro casamento: Patrícia e Luiz Claudio; e dois do segundo: Moésio Leonardo e Luís Eduardo. São cinco netos. Filhos e netos moram em Brasília. Meus pais são falecidos. Fora a Berenice (Paraná) e Izabel Cristina (Brasília), todos os demais nasceram no Ceará”.

 

Há pouco tempo Chico Lobo lembrou-se do tio que os recepcionou em Brasília, nos anos 60. Emocionado, ligou para agradecer aquela acolhida. Dezesseis pessoas num apartamento é mais que solidariedade, é o desejo que toma conta de todo cearense que não pode ver um conterrâneo ao léu, passando necessidade, principalmente parente. Foi essa mesma vontade incontida de ajudar que inspirou outros cearenses que fundaram a Casa que agora completa 50 anos. (WI)

 

 

 

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