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Quinta, 16 Agosto 2018

Raimundo de Albuquerque Pinho

Escritor, pioneiro.

Encravada na microrregião do sertão de Quixeramobim, bem no centro geográfico do Ceará e a 180 km de distância de Fortaleza, Madalena é uma pequena cidade de aproximadamente 19 mil habitantes. Até 23 de dezembro de 1986 pertenceu ao município de Quixeramobim, quando então foi elevada à categoria de cidade. Sua economia está baseada na agropecuária, além de possuir um comércio diversificado e uma rica produção de objetos artesanais, contando, inclusive, com uma moderna casa de arte, onde são expostos os trabalhos dos artistas locais. A população é de maioria católica e se orgulha de ter construído na sede do município uma das maiores igrejas católicas do Brasil.

Foi lá que nasceu Raimundo Albuquerque de Pinho, pioneiro da construção de Brasília, a partir do ano de 1959, quando aqui chegou vindo diretamente do Ceará, que naquele ano sofria uma das maiores secas da sua história. Sua vinda para a futura Capital se deveu, na verdade, mais ao seu espírito aventureiro do que mesmo à tragédia climática que desabou sobre o Estado, empurrando para cá milhares de conterrâneos seus que tentavam escapar da fome e da miséria provocada pela estiagem prolongada.

Raimundo Albuquerque nasceu no dia 13 de agosto de 1930, quando Madalena não passava de um povoado de pouco mais de meia dúzia de casas. Segundo ele, “as pessoas que ali viviam eram praticamente originárias de uma mesma família, que usavam o mesmo sobrenome, derivando daí epônimos como “Raimundo de Deus”, por meu pai chamar-se João de Deus; “Antonio Maneco, por ser criado pelo velho Maneco; “Raimundo Janjão”, porque seu pai chamava-se João e era conhecido no seu meio familiar pela alcunha de Janjão, embora sendo todos de família Pinho”.

Os pais de Raimundo, João de Deus Pinho e Rita Alves de Albuquerque, viviam da lavoura, juntamente com os filhos, em um pequeno sítio nos arredores da sede do então Distrito de Madalena. Ali plantavam milho, feijão e mandioca para o fabrico de farinha. Como os demais irmãos, Raimundo teve pouco tempo para frequentar escola e somente aos dez anos recebeu da mãe o aprendizado das primeiras letras. Aos 11, frequentou uma escola em Quixeramobim, onde cursou apenas o primeiro ano primário. Apesar do pouco estudo, gostava de ler. Embora com dificuldade, soletrando as palavras, lia tudo que lhe caia às mãos. Certa feita, debruçado sobre o que restava de uma página de jornal, gaguejando na leitura, recebeu a seguinte observação do “seu” Abílio, carpinteiro de Madalena: “Menino, você precisa aprender a ler”. E no dia seguinte presenteou-o com um exemplar do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, do qual, até hoje, aos 83 anos, guarda na memória e recita de cor páginas inteiras dessa obra clássica da literatura brasileira. A ânsia incontida pela leitura, a partir da infância, proporcionou-lhe um aporte invejável de informações e conhecimento que, no futuro, sedimentaria a vocação literária, afinal despertada já na idade madura, quando a aposentadoria lhe propiciou o tempo necessário para escrever a sua obra literária, que veio a lume graças ao incentivo insistente de amigos que sabiam da sua capacidade de prosador e exímio contador de estória. Cinco livros, e um ainda inédito, compõem a sua criação literária. Em todos revela o seu talento de escritor, ao narrar de maneira primorosa fatos que vivenciou ao longo da agitada existência, os quais mantinha preservados no fundo de sua extraordinária memória, de onde foram habilmente extraídos.

Seu primeiro livro se intitula “Odisséia de um retirante”, no qual narra os episódios de sua saída do Ceará, aos l9 anos de idade, e o tempo em que perambulou por vários estados, até fixar-se no Paraná, para ele uma terra estranha, de gente estranha, de costumes e modo de falar diferentes. Era como se estivesse num país estranho, que em tudo diferia dos hábitos, modo de viver e costumes do sertão nordestino. Ao livro seguinte deu o título de “Histórias da Minha Terra”, através do qual, relembrando lugares e pessoas, traça um roteiro sentimental pelo pequeno povoado que ele carinhosamente chama de “minha aldeia natal”. Publicou ainda “Casa Velha dos Torrões e Seus Exóticos Personagens” “Brasília, Gestação e Nascimento”. A propósito deste último escreveu: “A história que escrevi é uma história diferente das outras histórias que foram contadas sobre Brasília. É uma história cheirando a poeira, cheia de máquinas pesadas, peões, aventureiros, valentes e sonhadores”.

“Em todos eles – acrescenta o autor – podem ser encontradas histórias que narram acontecimentos jocosos, pitorescos e até humorísticos, pois este é meu estilo de escrever, dando forma de crônicas a muitas coisas que aconteceram comigo e com algumas pessoas com quem convivi”.

Com relação ao último livro que publicou, em 2010, volume de 127 páginas e a que deu o título “Evangelizar”, afirma Raimundo Albuquerque: “Achei por bem deixar para trás as coisas de menino e, de olhos mais abertos, procurar enxergar melhor as coisas de Deus, para mostrar em primeiro lugar aos meus filhos e netos como Deus recompensa, já aqui nesta vida, aos que seguem seus preceitos, seus mandamentos”.

Após deixar o Ceará apenas com a cara e a coragem e perambular por quase uma década por vários estados, sempre em busca de melhores condições de vida, Raimundo Albuquerque parou, pensou e a saudade apertou. E como o “Filho Pródigo” da parábola, decidiu por fim à aventura e retomar o caminho de volta na direção de sua “aldeia natal”. Lá, chegou como saiu: sem nada de seu. Buscou emprego numa empresa em uma fazenda distante dois quilômetros de Madalena. Durante o período em que ali trabalhou, instalou-se uma das piores secas da história do Ceará. O governo federal, através do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), criou o serviço de emergência para ocupação da mão de obra dos que deixaram suas terras por causa da seca. Raimundo largou o emprego na empresa e foi trabalhar para o DNOCS, contratado como Feitor Geral, tendo sob seu comando 1.200 homens, que sob o sol inclemente abriam no chão comburido a estrada que ligaria Fortaleza ao centro do País, a BR-020.

Estava indo bem, quando um fato novo mexeu com o espírito inquieto do filho de Madalena. “Numa daquelas manhãs em que o sol parecia querer incendiar a terra”, conta ele, teve a maior emoção de sua vida. Por volta de dez horas da manhã, surpreendentemente chega ao acampamento, acompanhado do diretor-geral do DNOCS, para uma visita às obras de emergência, o presidente Juscelino Kubitscheck, que de dentro de uma caminhonete acenava para a multidão de trabalhadores, “cujas roupas esfarrapadas e endurecidas pela poeira, em contato com o suor que jorrava dos seus poros, formavam uma crosta como se fossem feitas da própria terra” – descreveu ele. A presença do Presidente calou fundo na alma aventureira do jovem cearense, principalmente quando JK se reportou à construção de Brasília. “Foi aquela a primeira vez que eu vi um presidente da República. Foi aquela também a primeira vez que eu vi um presidente da República chorar”. Juscelino chorou ao deparar-se com aquele quadro de miséria das famílias que ali estavam acossadas pela seca e que mal tinham o que comer. E assim, no dia 7 de junho daquele ano de 1959, Raimundo Albuquerque, deixando para traz mais uma vez os parentes, a cidade natal e, desta vez, a namorada Terezinha, e de carona seguia na direção do Planalto Central, a bordo de uma caminhonete que o levou de Madalena a Fortaleza. A viagem até Brasília durou 14 dias. Na capital cearense pegou um ônibus que o levou até Divisa Alegre, no interior da Bahia, de onde, ainda de ônibus, viajou até a cidade mineira de Governador Valadares; dali, de trem, a Belo Horizonte, onde pegou carona num caminhão do DNER que transportava tambores de asfalto para Brasília, seguiu rumo á futura capital, parando para dormir na cidade de Paraopeba; a próxima parada, á noite, foi na cidade de Patos de Minas; a cidade seguinte, para pernoite, São Gotardo; dali seguiu para a cidade de Paracatu, a mais ou menos 300 quilômetros do destino final e de onde partiu para a cidadezinha de Pontal; prosseguindo a viagem, de carona no mesmo caminhão, lá pelas 13 horas, atravessando uma espessa nuvem de poeira, o motorista apontou-lhe a direção da Cidade Livre. Desceu do caminhão, botou a mala na corcunda e, pernas pra que te quero, meteu o pé na trilha, cruzou a área aonde seria mais tarde construído o Jardim Botânico e lá pras 4 horas aboletou-se na Pensão do Português. “Sentei-me na cama e chorei tudo o que tinha direito, de saudade dos pais, dos irmãos, da noiva e da cidade natal”, conta ele.

Era 20 de junho de 1959. Emprego não faltava para quem quisesse trabalhar. Conseguiu logo trabalho em um laboratório de solos e asfalto da Novacap e dentro de poucos meses foi promovido a fiscal de uma empresa que trabalhava com pavimentação asfáltica na construção do aeroporto de Brasília, passando a morar no acampamento da firma. À noite, lia e escrevia cartas para a noiva que havia ficado em Madalena.

O emprego na Novacap não lhe garantia a realização do seu maior sonho: casar o quanto antes e constituir uma grande família. Lembrou-se, então, que poderia explorar a profissão de sapateiro, que já exercera, num período curto de tempo em que morou no Juazeiro do Norte. Comprou um caixote na Cidade Livre e todos os apetrechos necessários e, à noite, trabalhava consertando sapatos. Só assim pôde voltar a Madalena e no dia 3 de janeiro de 1960 conduzir Terezinha Teixeira ao altar, retornando em seguida a Brasília onde constituíram uma família composta de 10 filhos (sete homens e três mulheres) e doze netos. Ao primogênito deu o nome de Juscelino, em homenagem ao criador de Brasília. Os demais: Francisco Joscely, Sérgio, Marcelo, Marcílio, Simão Pedro, Alexandre Magno, Francisca, Nara e Maria Neusa.

Na Apresentação do último livro que publicou escreveu: “Embora não tenha conseguido amealhar bens que lhes pudesse deixar como herança, sinto-me realizado, porque vejo todos portadores de diploma de terceiro grau, trabalhando para o seu sustento e para o bem do Brasil. Pelo que sempre digo: Obrigado meu Deus, isto me basta!” (JJO)

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