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Quinta, 16 Agosto 2018

Rodger Rogério

O Cearense que no Coração do Brasil abria os braços e a casa para outros cearenses

Encantado com músicas e números desde a infância, a curiosidade adolescente levou-me à Física na Universidade Federal do Ceará. Devido a um convênio, fui terminar o bacharelato na Universidade de S. Paulo, em 1967. Naquele centro de excelência, fui aluno do professor Luiz Carlos Gomes, mais talentoso físico-teórico que conheci na minha vida acadêmica. Dois anos depois, ele dirigindo a Física em Brasília e eu professor na UFC, convidou-me para lecionar e cursar o mestrado na UnB. Era início de 1970, chego a Brasília de “mala e cuia” com uma esposa, a cantora Teti, e Daniela, filha de um ano de idade. Vislumbro e vivencio o projeto de Lúcio Costa, a Arquitetura de Oscar Niemeyer, a cidade de JK, a capital dos brasileiros. A Novacap completava então dez anos de inaugurada. A comunidade cearense era enorme dentro e fora da Universidade. Flávio Torres de Araújo, Newton Teóphilo e José Evangelista Moreira chegaram à Universidade de Brasília também a convite do prof. Luiz Carlos Gomes.

 

José Evangelista chegou com a esposa, Maria José Auto, que terminou seu bacharelato em Física na UnB. Brasília naquele momento passou a ser o destino preferido de muitos cearenses em busca do grau de Mestre em Física, como Josué Mendes Filho, Paulo Cesar Bezerra e muitos outros.

 

O soerguimento da Universidade criada por Darcy Ribeiro tornava Brasília um polo que atraía jovens em início de carreira profissional. Assim, muitos amigos foram chegando: Fausto Nilo, arquiteto; sua então esposa Mércia Pinto, musicista; Francisco Augusto Pontes, poeta e filósofo brilhante que cursou comunicação na UnB; Yêda Estergilda, advogada e principalmente poetisa; Wilson Ibiapina, jornalista; Tânia Cabral de Araújo, professora de tecnologia de alimentos e também compositora; Ubiratã, biólogo; Gouvan, químico; e ainda Raimundo Fagner, que chegou para o vestibular de Arquitetura e ganhou todos os prêmios num Festival Universitário de Músicas do CEUB. A lista de cearenses aqui citados seria bem maior se puxasse mais pela memória. Não posso deixar de me lembrar do advogado, hoje cineasta, Francis Vale. Francis estava em Belém do Pará vivendo na clandestinidade com nome e documentos falsos e foi para Brasília encontrar-se com a Dra. Claire Lopes e com ela se casar. O casamento religioso aconteceu na bela igrejinha da Asa Sul, projetada por Oscar, (permitam-me a intimidade). Eu morava na SQS 302, uma quadra de militares, aliás, meu apartamento era alugado e pertencia a um cearense oficial do Exército. Não havia lugar mais seguro para Francis, perseguido pelos militares, passar sua “lua de mel”.

 

Frequentávamos um bar e restaurante árabe, “O Beirute”, onde os donos, o gerente, o cozinheiro e os garçons eram todos de uma mesma família cearense. A exemplo do que acontecera no Acre, o Planalto Central foi, em grande parte, povoado por cearenses.

 

Nossa vida resumia-se quase exclusivamente à Universidade. Claro, logo se estabeleceu um futebol aos sábados à tarde em um campo de barro que ficava entre o Centro de Ciências e a Colina e, às quartas-feiras, ao término do expediente, íamos jogar conversa fora em algum botequim da Asa Norte, para encurtar a semana, alegava-se. Em muitos domingos, o encontro era para tocar um violão e cantar músicas, muitas delas nossas e algumas compostas recentemente. Assim continuávamos exercitando nossa boemia cearense. Compus algumas músicas em estado de espírito brasiliense. Rodoviária, em parceria com Antônio José Soares Brandão, foi uma delas, que mais tarde, em 1975, viria a figurar no Disco Chão Sagrado, gravado na RCA Victor em S. Paulo. Fausto Nilo começava a se interessar em escrever letras de música e ficou inacabada nossa primeira parceria, mas me lembro do refrão que dizia... “Maldito domingo, acordado, arrasado/ de um sono pesado que a noite no bar/ não me permitiu...”

 

Aliás, a baixa umidade da atmosfera brasiliense era um terror nos dias seguintes às noitadas com violão. Com o professor, depois colega e eterno parceiro José Evangelista, fizemos Falando da Vida, música gravada no disco Meu corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, que ficou mais conhecido como Pessoal do Ceará. Os últimos versos desta canção dizem: “Se a morte, se a morte vier me encontrar/ ela sabe que estou entre amigos/ Falando da vida e bebendo num bar”. Até hoje esta música povoa o sentimento da boemia de nossa Fortaleza de Nossa Senhora d’Assunção.

 

Com o querido parceiro, Francisco Augusto Pontes, compus Estrelas de Ouro e O Lago. A primeira continua inédita e a segunda é a mais brasiliense das minhas canções. O Lago, é claro, é o Paranoá e a letra diz: “Ainda ontem eu e a Lua/ Tomávamos banho no lago/ batemos um papo/ radiante prateado/ metade da Lua/ metade de mim./ A Lua a leve pupila do lago/ prato boiando/ bandeja de prata o lago/ Metade eu, metade a Lua/ flutua abraçando a cidade”.

 

As canções e os momentos de boemia foram poucos. O tempo maior era mesmo dedicado ao magistério e ao mestrado que, com a orientação do prof. Luiz Carlos Gomes, culminou com a defesa da tese Oscilações Coletivas de um Gás de Elétrons no Interior de um Órbitron. Hoje aposentado da Universidade, permanece a necessidade de ler e pensar em Física, pois a curiosidade sobre o modo como funciona o mundo só aumentou.

 

Minha atividade profissional no momento é música e cinema. Sou ator e cantor, componho canções e escrevo trilhas sonoras para audiovisual. Tenho feito isso sem sair do Ceará. Trago comigo uma saudade e um sentimento bom: Ainda vou passar uma boa temporada compondo e cantando em Brasília, no coração do Brasil. (WI)

 

 

 

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