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Sábado, 18 Agosto 2018

Pessoal do Ceará

Raimundo Fagner, Gugu, Dedé, Mercia , Rodger, Rogério, Teté, Fausto. Pessoal do Cearána UnB e na música  

Muitos jovens cearenses ao concluírem seus cursos na Universidade Federal do Ceará, no começo dos anos 70, decidiram se mudar para Brasília.

 

Foi uma revoada de talentos. Na época, a Universidade de Brasília, depois de ver seus professores e alunos perseguidos pelo regime militar, começava a se reestruturar. O vice-reitor, José Carlos Azevedo, procurava atrair professores e alunos de todo o País e até do exterior. O curso de Arquitetura, por exemplo, ficou dois anos fechado. Parte dos alunos, insatisfeitos com o padrão impositivo da UnB, manietada pela ditadura, exigiam reformas qualitativas e liberdade plena no ambiente universitário. A reabertura foi negociada com o vice-reitor Azevedo (que depois virou reitor) por representações de estudantes e por uma comissão de professores, entre os quais tiveram papel definitivo os professores arquitetos cearenses Neudson Braga e José Liberal de Castro. Nessa época, Fausto Nilo concluía seu curso de Arquitetura em Fortaleza e fez, em seguida, exame para auxiliar de Ensino na Faculdade de Arquitetura da UFC, onde ingressou no corpo docente. Mal tinha assumido suas novas atividades, Fausto Nilo foi chamado a se transferir com a mesma função para a Faculdade de Arquitetura da UnB, recém-reaberta sob a direção do gaúcho Miguel Pereira. Fausto explica que “por força de meu conhecimento com os colegas de lutas estudantis na Executiva Nacional dos Estudantes de Arquitetura (ENEAU), (que, ao contrário de minha situação, já diplomado, permaneceram estudantes por conta do período de fechamento) e também com Miguel Pereira, fui um dos nomes de todo o Brasil escolhido para trabalhar na Arquitetura do ICA/UnB, onde cheguei em 1971 e permaneci até o final de 1972”.

 

Fausto ficou feliz com o convite, “uma vez que nossa crença (embora ingênua, a esta altura com o movimento estudantil no ambiente universitário totalmente devassado pela chamada repressão) era de que residir em Brasília seria um meio de não ser mais ameaçado, na medida em que estando ali tão próximo do poder central estaríamos livres de ameaças repressivas. Ledo engano, uma vez que pessoas continuaram a ser presas, mesmo estando nesta circunstância de geografia próxima ao centro do poder”.

 

Mesmo assim, essa permanência em Brasília lhe trouxe grande experiência no campo didático, estimulando seu interesse pelo estudo do urbanismo com mais profundidade. Morar em Brasília lhe permitiu o convívio com colegas de todas as regiões do Brasil com quem até hoje mantém amizade. Fausto terminou, anos depois, sendo o paraninfo da turma de arquitetos que iniciou seus estudos sob sua orientação e de outros três colegas. Fausto Nilo reconhece: “muitas coisas eu devo a Brasília entre noites melancólicas de frio e cachaça paulista; grandes amizades que mantenho até hoje; a abertura para a curiosidade intelectual mais responsável; o início de minha carreira de autor letrista de canções populares; e o acúmulo de inúmeras lembranças de fatos ligados à nossa resistência aos anos de chumbo”.

 

Fausto Nilo morou no mesmo prédio, o lendário Flávia Ilka, na 311 Sul, onde também residiam Augusto Pontes, Wilson Ibiapina e a poetisa Yêda Estergilda, todos em mutirão habitacional no apartamento de Rodger Rogério e Tety. E lá se vai o Potinho, Roberto Aurélio, Sérgio Bigode, Manassés. O Augusto dizia para todos que ainda não compreendia a cidade, inconformado com a quantidade de siglas: SQS, SQN, SHIN, SHIS. Quando perguntavam se ele conhecia Brasília, ele dizia “não, ainda estou nas primeiras letras”.

 

O físico Rodger Rogério era uma espécie de líder. Todos os artistas e jornalistas que iam chegando ficavam gravitados em torno dele. Além da física, Rodger aproveitou para estudar também violão, inspirado no baiano João Gilberto. A Tânia Cabral, compositora, também saiu de Fortaleza para Brasília. Lembro que um dia ela chegou em casa e a empregada avisou: – seus amigos americanos passaram aqui, deixaram até um bilhete”. Estavam lá as assinaturas de Wilson, Rodger e Tety, três cabeças-chatas que, pelos nomes, foram confundidos pela doméstica como conterrâneos do Tio Sam.

 

O cantor Raimundo Fagner também achou o rumo de Brasília, o novo Eldorado. Antes, o cearense só procurava o Sul maravilha. Era lá que estavam as oportunidades de estudo e emprego como o Augusto Pontes registrou na canção que fez com o Ednardo: “Se amanhã der o carneiro.../ Vou m’imbora daqui pro Rio de Janeiro/ … E vou voltar em vídeo tapes/ E revistas supercoloridas/ Pra menina meio distraída/ Repetir a minha voz”.

 

Fagner, ainda muito jovem, chegou a Brasília a convite da irmã Elizete que, em 1969, mudou-se para a capital, acompanhando o marido Vicente Martins da Costa Sobrinho, médico e professor da UnB. O filho dele, também Vicente, lembra que Fagner foi aprovado no vestibular para Arquitetura na UnB. Mas já nessa época a música era sua paixão. E logo surgiu uma boa oportunidade. Em 1971, o Fagner venceu o primeiro Festival de Música do Ceub. Até hoje tem uma placa numa das paredes daquele centro superior de ensino enaltecendo o feito. Ele ganhou o primeiro lugar com a música Mucuripe. Estavam lá também as músicas Cavalo Ferro e Manera Fru Fru Manera, esta que deu título ao primeiro disco gravado por ele. No segundo Festival de Música do Ceub, Fagner presidiu o júri, que escolheu como vencedora a música Placa Iluminada, de autoria do piauiense Clôdo Ferreira. Quando a música Revelação, de Clôdo e seu irmão Clésio, estourou no País na voz de Fagner, o artista cearense voltou a Brasília para fazer um show na Escola de Música. No terceiro Festival do Ceub, Fagner desembarcou aqui com Chico Buarque, Ivan e Lucinha Lins, que se apresentaram no encerramento.

 

Foi nessa época que a então presidente da Casa do Ceará, dona Mary Calmon, pediu socorro aos jovens artistas para que ajudassem a sanar as finanças da instituição. Fagner, Belchior e Ednardo realizaram shows inesquecíveis para os brasilienses que lotaram o pátio da Casa.

 

O cantor e compositor Ednardo, hoje morando no Rio, lembra dessa temporada brasiliense com saudade: “A cidade de Brasília tem uma importância fundamental para muitos artistas oriundos do Pessoal do Ceará que passaram por lá. Amigos jornalistas e parceiros e comunicadores também residem ou residiram nesta cidade, Wilson Ibiapina, Edilma Neiva, Roberto Aurélio Lustosa, Climério Ferreira, Clodô Ferreira, Clésio Ferreira, os cineastas Pedro Jorge, Nirton Venâncio, Wladimir de Carvalho, Walter Carvalho, entre tantos outros amigos e amigas. Os shows realizados entre os anos 70 e 80 são memoráveis, no Teatro Nacional; no Auditório Dois Candangos, da UnB; na Casa do Ceará; no Teatro Galpão; em Festivais de Músicas Universitárias convidado por estudantes, enfim tantos, quase impossível lembrar todos. Às vezes, ao fazer um show em Brasília, ficava por dias ou semanas para fazer parcerias com outros amigos e conhecer melhor a cidade, posso dizer que daí veio meu amor por Brasília, para a qual realizei a música: Serenata pra Brazilha”. (WI)

 

 

 

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