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Terça, 16 Outubro 2018

Paulo e Pedro Prado

Fizeram do Bar dos Cunhados um ponto de solidariedade

Brasília deve ter de 30 a 50 mil bares, distribuídos por todas as suas cidades-satélites. Nas Asas do Plano Piloto estão nas Comerciais Locais Sul e Norte. Bares, restaurantes, botecos, “pés-sujos”, lanchonetes e pizzarias são pontos de encontro, de reunião, de confraternização dos brasilienses, de migrantes, candangos, descendentes. São goianos, mineiros, cariocas, baianos, piauienses, cearenses que para cá vieram, trazendo seus braços, os braços de seus irmãos, na busca da sobrevivência com dignidade. A nova geração nascida em Brasília está moldando sua identidade nas mesas dos bares e cadeiras desses pontos, com os amigos e os cunhados, as cunhadas e as amigas.

 

O Bar dos Cunhados foi fundado em 1981, há 33 anos, inicialmente no Bloco C, da CLN 115, com o nome de Bar Katucha, por Antonio Prado, o mais velho de 16 irmãos, filhos de Francisco das Chagas e Tereza Gomes, agricultores que habitavam o pequeno sítio Santa Maria, a 12km ou duas léguas de Hidrolândia, a 252,2km de Fortaleza, ou 3h42 de automóvel, na microrregião de Santa Quitéria, que reúne Catunda, Ipu, Ipueiras, Nova Russas, Pires Ferreira, Santa Quitéria e Tamboril. O nome é derivado da existência de águas medicinais e sulfurosas na região. Antonio e 15 irmãos tiveram uma infância pobre, difícil, sem brinquedos, sem oportunidades, com poucos estudos.

 

Em 1968, Antonio tomou o rumo de Brasília, abrindo caminho para o êxodo da família Prado. Em Hidrolândia, até obter água para beber era complicado. Iam buscar em açudes distantes. Todos saíam à cata d’água e todos, quando chovia, iam para a roça ajudar seu Francisco das Chagas, no plantio e na colheita. Na seca, uma miséria de cortar o coração. Faltava tudo. As perspectivas de vida se diluíam na escassez de bens materiais. Mas era preciso sonhar e ter esperança de melhores dias. Antonio chegou de pau de arara, cruzando o Nordeste. Foi bater na Vila Planalto, na casa dos conterrâneos de Hidrolândia, Francisco e Valdir, que o acolheram. Ainda hoje lá mora na rua 7 Casa 9, casado com Luiza Sueli Rodrigues Carvalho, com dois filhos, Carlos André, de 36, e Carla Andrea, de 30, e um neto, filho de Carla, Mateus.

 

Batendo de porta em porta, conseguiu trabalhar no Iate Clube, que se estruturava, montando uma cantina para fornecer alimentação aos empregados do clube. O negócio deu certo. Se o Iate cresceu, Antonio também. Em 2014, completará 50 anos de trabalho agora como dono da lanchonete do Iate, com os irmãos Luis e Juraci.

 

“Tudo o que somos e conquistamos, devemos ao Antonio, que é a nossa referência, confessa Paulo Prado, um dos sócios do Bar dos Cunhados, e o mais novo dos Prados. Antonio abriu negócios com os irmãos, indicou os caminhos, fez recomendações sobre comportamento, ética, respeito, consideração. Aldecir tem bar no Radiocenter, e Roberto, em Brazlândia. Eu e Pedro estamos aqui no Cunhados. Antonio nos deu segurança, nos ensinou a trabalhar e nos fez solidários uns com os outros. Assim, sobrevivemos, constituímos família e estamos educando nossos filhos, com a dignidade forjada na nossa origem humilde.”

 

Para Brasília veio de Hidrolândia uma fieira de Prados. Antonio, Luis, Juraci, João, Damásio, Roberto, Aldecir, Francisco, José, Arildo, Pedro, Paulo e Antonia. Um dia, Antonio cismou em trazer os pais, Francisco e Tereza. A família foi toda instalada numa casa grande na QI 12 Guará I, mas, depois de cinco anos, decidiram voltar para Hidrolândia, pois se consideravam peixe fora d’água. Não se adaptaram a Brasília. Mais tarde, Francisco morreria, mas dona Tereza continua viva, com 85 anos, vivendo com a filha Umbelina, que dela cuida, no mesmo berço de todos: Santa Maria. Outra irmã dos Prados ficou em Hidrolândia, Edite, com muitos sobrinhos. Isso nos leva a ter o umbigo plantado em Hidrolândia, diz Paulo, que assegura que todos lá estiveram pelo menos uma vez e que contribuem para manutenção da família naquele canto do mundo.

 

Em 1981, com a chegança dos irmãos, Antonio, que estava com a cantina no Iate, convocou o irmão Roberto para trabalhar com ele no bar Katucha, nos fundos do Bloco C da CLN 115, em loja alugada. Em 1986, Antonio e Roberto compraram o ponto no Bloco B, de frente, e cravaram o nome de Bar dos Cunhados, assim chamado em homenagem à irmã, Antonia, que por lá passou e teve muitos pretendentes. Em 1990, o Bar dos Cunhados passou aos irmãos Arildo e Pedro e, desde 1998, está com os irmãos Paulo e Pedro. Paulo trabalha de dia e cuida de toda a parte administrativa e da clientela, e Pedro trabalha à noite. “Neste nosso negócio, “o olho do dono” deve estar presente durante todo o horário comercial. Qualquer descuido, o bar acaba”, afirma Paulo.

 

O segredo do sucesso do bar está na assiduidade dos grupos de amigos que lá se reúnem. Aliás, é numeroso o grupo de cearenses que frequenta, diz Paulo, assinalando que o cliente é o foco. O Bar dos Cunhados tem 13 mesas fixas em cima e 20 em baixo, na lateral, mas, dependendo da demanda, chega a 40. Nos dias de jogo, chega a 50. Boa cozinha, bons garçons, bom atendimento, boa qualidade, bom preço, cerveja gelada e uma oferta de iguarias na culinária. Às sextas-feiras, a feijoada atrai muita gente das áreas próximas; aos sábados, a rabada. À noite, além da moela com molho, a costelinha suína e os caldos são preferidos pelos cunhados dos amigos e os amigos dos cunhados. “Aqui tem grupos com mais de 15 anos, quase uma confraria que sempre se encontram para viver a vida.”

 

Paulo é casado com Marlene Pereira, mineira de Paracatu, com três filhos, Karen, de 20 anos; Sarah, de dois; e Sophia a caminho do primeiro ano de vida. O casal mora na Vila Planalto, antigo Acampamento Pacheco Fernandes, perto de Antonio e de outros irmãos. Pedro é casado com Maria Eliane Alves e não tem filhos.

 

Um letreiro no restaurante dá o tom da cearensidade do pessoal de Hidrolândia. “Bar dos Cunhados – Amigos para sempre”. Não há um compromisso de servir só comida cearense, a culinária mistura mineiro, baiano, goiano e cearense, especialmente com a carne de sol. O prato executivo está disponível de quarta-feira a domingo até duas da manhã. De domingo a quarta, até uma da manhã. O chefe de cozinha, Anastácio Araújo, é de Viçosa do Ceará, trabalha com uma equipe de que faz parte Maria Elza, mineira. Trabalha com outros dois auxiliares, baiano e goiano. Os garçons, Raimundo Vieira, é de Viçosa, do Ceará; Edmilson Bezerra, de Poranga; Johnson de Souza, de Santa Quitéria; e Raimundo Pacheco, de Santa Quitéria.

 

Paulo tem consciência de que o que atrai os frequentadores do Bar dos Cunhados é o atendimento, a atenção, a tranquilidade, a segurança e a “cerveja estupidamente gelada e a cachacinha mineira”. Lamenta que nunca tenha sido procurado por um distribuidor de cachaça do Ceará, que não está disponível. (JBSG)

 

 

 

 

 

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