Quinta, 24 Maio 2018

Maria Holanda Lopes Carvalho

Cearense de fibra enobrece Brasília

A Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou por unanimidade o projeto da deputada Arlete Sampaio, que outorga à Sra. Maria Holanda Lopes Carvalho o título de “Cidadã Honorária de Brasília”. Esse título foi um reconhecimento ao trabalho da professora Holanda pelo desenvolvimento cultural dos habitantes mais humildes que ocupam as cidades-satélites do Distrito Federal, principalmente Taguatinga e Ceilândia, a segunda maior cidade cearense fora do Ceará. A primeira ainda é São Paulo.

 

Até chegar a essa homenagem, muita água correu debaixo da ponte. Foram horas de estudo, dedicação, trabalho, sofrimento e prazer. Comeu o pão que o diabo amassou. Como diria seu conterrâneo Belchior, Maria Holanda era apenas uma moça latino-americana “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior...”

 

Hoje, ela conta sua trajetória com humor, como se a vida realmente fosse diferente. Transforma os horrores da infância despojada de recursos, cheia de necessidades, numa história engraçada, num conto de fada com final feliz.

 

Filha de pai pernambucano e mãe paraibana, logo uma legítima nordestina, a professora Holanda nasceu em Porteiras-CE, divisa dos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. O Sítio Caracuí, onde nasceu na cidade de Porteiras, Ceará, tinha 4 divisas: a sala e o quarto pertenciam ao Ceará, a sala de jantar e a cozinha pertenciam à Paraíba, de um lado onde ficava o açude pertencia a Pernambuco, e do outro lado onde ficava o gado era o Rio Grande do Norte. “Como nasci no quarto, sou Cearense.”

 

Seu pai, José Lopes de Holanda. Sua mãe, Emitéria Lacerda Holanda. Cresceu ouvindo as histórias de sua avó sobre o Santo “Padim” Padre Cícero Romão Batista; Frei Damião; da beata Mocinha; do bandoleiro e justiceiro Virgulino Lampião; Maria Bonita e tantos outros desconhecidos que fizeram parte de sua história.

 

Talvez por isso demonstrou logo cedo seu interesse pela arte, participando de dramas, comédias, corais, programas de auditório, pastoris e recitais. Em Conceição do Piancó-PB, conheceu a seca que mata de fome e sede pessoas e animais. Católica praticante, participava de romarias, procissões e penitências, implorando a Deus que mandasse chuva àquele sofrido sertão agreste. Conheceu a fé e a pureza do povo simples que acreditava em milagres. Esperavam todos sinais do céu; e para pressionar São José, roubavam sua imagem, devolvendo-a após o inverno. Mesmo diante da intempérie, o amor floresceu em seu coração de menina moça .

 

Casou-se em Conceição na Paraíba, com José Liberato Carvalho, com quem teve cinco filhos :

 

Joselito, Jackeline, Josceline (In memoriam) e os gêmeos Jodelmá e Joelma (In memoriam). Fugindo da seca e da falta de condição de vida, cansada de vender o salário que atrasava seis meses, recebendo apenas 40% dele, veio para Brasília com esposo e filhos em 1972.

 

Aqui no Distrito Federal foi morar em Taguatinga, que já era a mais próspera das cidades-satélites. Fixou residência em Taguatinga Norte. Em 1975, mudou-se para o Setor M Norte de Taguatinga. Trabalhou para integrar as pessoas e com isso iniciou-se a comunidade católica São Pedro e São Paulo, onde formava grupos de jovens, casais, pastorais, fazia promoções para a compra do terreno e construção do templo. Posteriormente houve um desmembramento, criando-se a Paróquia Imaculada Conceição, à qual ela pertence e integra a Equipe de Liturgia e Canto.

 

Formada, graduada e mestra em Artes Cênicas pela Faculdade Dulcina de Morais em Brasília, após ter sido jubilada do curso de Sociologia na UnB, por conta das lutas estudantis, criou, produziu, dirigiu e atuou em diversas peças de teatro, tendo como destaque a peça A Seca, que conta a história do nordestino em busca da sobrevivência. Tendo sido aprovada em concurso público, da Fundação Educacional de Brasília, no cargo de professor, pós-ditadura, durante uma greve de professores, a professora Holanda foi presa, processada e defendida pelo saudoso Maurício Corrêa e ainda teve seu nome na lista dos demitidos.

 

Comprometida com a Educação, passou meses, visitando as casas dos seus alunos, para conhecer a sua família, sua realidade e saber o que fazer para ajudá-los .

 

No âmbito político, é líder comunitária; secretária de cultura da 1ª Prefeitura do Setor M Norte. Fundou o Grupo de Ação Feminina (GAF); o Comitê Pró-Moradia Digna; foi conselheira do Orçamento Participativo; integrante da Associação do Arte-Educador (ASAE); foi eleita para a Comissão de Negociação dos Professores Aposentados e, por último, diretora do Sindicato dos Professores.

 

Como reconhecimento recebeu os seguintes títulos: Simplesmente Mulher; Cidadã Taguatinguense (duas vezes); Mulher Destaque em Cultura; Mulher Destaque em Educação; Diploma de Pioneiro Destaque; Diplomas de Honra ao Mérito em Reconhecimento aos trabalhos prestados em Taguatinga (duas vezes); Diploma de Honra ao Mérito; A Comenda de Pioneiro Destaque 2003 em Folclore; Mulheres Fantásticas 1996 e 2000; Mulheres que Brilham 2000, 2007 e 2012; Mulher Educadora e Cidadã do Mundo 2010; Cidadã Honorária de Taguatinga 2011; Moção de Louvor – Câmara Legislativa do Distrito Federal 2011; Presidente do Conselho de Saúde do Posto Nº 07, do Setor M Norte de Taguatinga.

 

Publicou três livros com os seguintes temas: Folclore Brasileiro (Pesquisa). Resgata crendices, superstições, usos, costumes, comidas típicas, cantigas de roda, provérbios, um verdadeiro tributo à cultura popular, da qual a professora Holanda é defensora e divulgadora; A Formiguinha Bonitinha, Juíza dos Animais (Leitura Infantil). Focaliza, de uma maneira lúdica, os problemas de machismo, feminismo e justiça; O Grito (Poemas e Contos). Objetiva sensibilizar as autoridades para as injustiças sociais. Participou na elaboração do livro que conta a história da Arte Educação em Brasília, produzido pela UnB. Pelo seu trabalho literário, foi eleita membro da Academia Taguatinguense de Letras.

 

Ao participar de um Congresso sobre Educação, em Salvador, em 1983, cansada de abrir a bolsa e mostrar o crachá cada vez que saía ou entrava no evento, pintou as unhas, cada uma de uma cor, para facilitar o ingresso. Até hoje sua marca, a marca da professora que pinta uma unha de cada cor. Sua filha Jackeline conta que, por ocasião de seu último aniversário, os amigos fizeram um bolão para tentar descobrir a idade da professora Holanda. Brincadeira à parte, ela diz que podem pedir qualquer coisa, menos que diga sua idade. (WI)

 

 

 

 

 

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