Terça, 14 Agosto 2018
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Um cearense chamado JK

(*) Adirson Vasconcelos

“Honro-me em ser cearense” – disse o presidente Juscelino Kubitschek, em 1960, para acrescentar em seguida: “Somos, nós cearenses, marcados pela vocação ao trabalho”.

 

Conclui JK o seu pensamento, definindo ser cearense:

 

– “O cearense encarna a dignidade, o estoicismo, a capacidade de lutar sem arrogância, e, também, sem medo”.

 

E argumenta o simpático presidente dos Anos Dourados do Brasil:

 

– “Há sempre um dos nossos irmãos a dar o exemplo de pertinácia, de luta, de honesta malícia, capaz sempre dessa proeza extraordinária de adaptar-se a todos os meios sem perder a marca, a filiação, a personalidade, o traço comum e fundamental dos que nasceram nesta terra martirizada e gloriosa, paciente e inconformada, à qual tanto deve a história da liberdade humana em terras do Brasil”.

 

Essas são palavras e definições do presidente Juscelino Kubitschek, que presidiu o Brasil de 1956 a 1960. E foram proferidas na solenidade em que Juscelino é recebido e homenageado pelo povo do Ceará com o título de Cidadão Cearense, em 15 de julho de 1960. JK é recebido pelo governador e professor Parsifal Barroso e milhares de conterrâneos seus que vão às ruas de Fortaleza para aplaudi-lo e ovacioná-lo. Um cearense diamantinense; um diamante das Minas Gerais.

 

Ao final, JK recordou os cearenses que trabalharam com ele, no seu Governo. E os define, com alma de sociólogo, afirmando que “não temem riscos e não conhecem nenhum lazer enquanto há tarefas e obrigações a cumprir, e das quais se desincumbem com lealdade e tato”.

 

No tempo da epopeia da construção de Brasília, de 1956 a 1960, o presidente Juscelino tinha contatos diretos e pessoais com os candangos vindos do Ceará e outros estados para oferecer seu trabalho e seu esforço na construção do que a imprensa mundial chamou de “A Obra do Século XX”. (Candango era a designação – por uns, carinhosa; por outros, pejorativa –, hoje histórica, dada aos que construíam Brasília.)

 

Em muitas ocasiões, observei-o chegar, em horários diurnos e noturnos, inspecionando as obras, de jeep, com um assessor e o motorista, visitando as construções nos acampamentos, onde os candangos, às centenas e milhares, se acercavam dele e ele, JK, sem seguranças e com afabilidade, assim dizia: “Meus amigos, conto com vocês para nós entregarmos esta Capital no dia 21 de abril de 1960”. Esse gesto de identidade e carisma do presidente deixava a candangada atônita, feliz e motivada. A notícia corria em todo o acampamento. A partir daí, os candangos viravam “feras” e “gênios” nas obras. Um fato admirável, inacreditável!

 

Quando, quando, antes, teriam modestos trabalhadores a chance de ficar perto de um presidente da República?... (ou, mesmo, de um governador de estado ou de um prefeito de cidade?) ... e, nas obras de Brasília, saíam na foto ao lado do presidente do Brasil!...

 

Um cearense anônimo, de Sobral, o José Francisco, que trabalhava, naquele tempo, nas obras da 108 Sul, tocadas pelo Instituto dos Bancários, o IAPB, disse-me encantado: “Isto não existe... é um milagre!” E, num gesto bem cearense, pediu-me que eu “beliscasse” o seu braço... (costume de cearense quando, não acreditando no que vê, quer confirmar se está vivo.)

 

Esse contato pessoal de JK com as pessoas, com o ser humano brasileiro, apertando-lhe a mão ou abraçando-o com sinceridade, ouvindo-o ou sentindo-o emocionalmente, permitiu ao presidente que, no Ceará, pudesse afirmar:

 

– “Conheço o homem do povo, o homem simples, que empresta a sua colaboração ao esforço de redenção do Brasil”.

 

Confidencia, então, aos cearenses que o recebem em Fortaleza, numa observação de valor antropológico:

 

– “Em todos os quadrantes de nossa terra, há cearenses trabalhando. São agricultores excelentes onde quer que a Providência Divina lhes ofereça gleba propícia. São operários de construção, e, em Brasília, durante a fase crítica em que erguemos a cidade-símbolo de nossa Esperança, em tempo recorde, não lhes faltaram os braços vigorosos. É esta gente trabalhadora, ativa, intrépida, habituada a vencer as desgraças das torturantes estiagens, que me faz confiar nas possibilidades de nos salvarmos, de nos redimirmos, de sermos levados a ocupar o lugar que merecemos no mundo de hoje”.

 

Lembrar o presidente Juscelino Kubitschek, na sua cearês e na sua brasilidade, é da maior oportunidade quando a Casa do Ceará está evocando e exaltando A Presença dos Cearenses na Consolidação de Brasília, em documento comemorativo intitulado Brasília, 50 Anos de Ceará.

 

Todavia, muitos e muitos outros cearenses, que atuaram tanto quanto, não foram citados. Por isso, a Casa faz este Segundo Volume. Uma grande legião de candangos, conterrâneos nossos, que deram seus sonhos, suas esperanças e, até, seu sangue, seu suor e suas lágrimas para ver Brasília, capital de todos os brasileiros, como a obra do século XX, na visão da imprensa mundial; Capital da Esperança, na perspectiva do filósofo francês André Malraux; e Capital do Terceiro Milênio, na profecia de JK.

 

A eles, os milhares de cearenses anônimos de Brasília, ladeando, ombreando e seguindo o líder Juscelino Kubitschek, na grande empreitada histórica de Brasília, a homenagem da Casa do Ceará, evocando-os, lembrando-os e exaltando-os, neste Segundo Volume sobre A Presença dos Cearenses na Consolidação de Brasília, ao ensejo das comemorações de Brasília, 50 Anos de Ceará. Assim deseja o nosso presidente da Casa do Ceará, o jurista Osmar Alves de Melo, cearense de Iguatu, que me revelou seus nobres propósitos. Aliás, nobres são todos os propósitos da Casa do Ceará em Brasília, na sua missão altruística, já cinquentenária, de ajudar o próximo, independentemente de ser cearense. A obra editorial foi confiada ao zelo e à competência do jornalista JB Serra Gurgel, um cearense “pai d´égua” de Acopiara.

 

A Casa do Ceará em Brasília homenageia JK e os Cearenses Anônimos que Consolidaram Brasília! Candangos Anônimos, como o José Francisco, a quem já me referi, quando ele se espantou e reverenciou o jeito simples, humilde, nobre, amoroso e carismático de JK ao lhe dizer e aos seus companheiros simples e rudes trabalhadores candangos: “Conto com vocês para nós entregarmos esta Capital no dia 21 de abril de 1960”.

 

Quando o presidente Juscelino Kubitschek foi inaugurar Brasília, em 21 de abril de 1960, chamou um cearense, de prestígio internacional, para, na apoteose, reger a Orquestra Sinfônica – o maestro Eleazar de Carvalho.

 

E o sonho se fez realidade! Um templo à unidade nacional e um polo de integração brasileira, construído com amor, igualdade de direitos, liberdade de pensamento e fraternidade universal.

 

O Ceará se disse presente na construção, na fixação e na consolidação de Brasília, assim como se fez presente em tantos outros momentos significativos da vida brasileira, inclusive na Abolição da Escravatura, que lhe ensejou ser chamada de “Terra da Luz”.

 

Brasília é, para os cearenses, um estágio da evolução humana.

(*) Adirson Vasconcelos (Santana do Acaraú*), historiador de Brasília, jornalista e escritor.

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